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Aquela Casa
Triste...
Camilo Castelo
Branco
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Aquela Casa Triste...
I
A casa grande das quinze janelas branqueja no espinhao do monte.
As janelas fecharam-se h seis meses, ao mesmo tempo que duas
sepulturas se abriram.
A sepultura do Africano, que chegava ao cemitrio quando a filha
expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos
funerais do pai.
*
Ao homem que morreu naquela casa triste chamavam o Africano.
Estou-a vendo daqui.
As vidraas reverberam o sol poente.
Eu, h hoje dez anos, vi abrir os alicerces daquela casa.
Lidavam operrios a centenares.
Entre os alvenis estava um sujeito, na pujana dos anos, magro,
macilento e tostado pelo sol da frica.
Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e
se chamava Duque por apelido e o Africano por alcunha.
Avizinhei-me dele, com o semblante risonho de cortesias, para lhe
perguntar como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edifcio to
grandemente cimentado.
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Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andara
viajando na Sua. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras
de S. Gotardo, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo duma
montanha, em casa imitante de outra onde pernoitara, e donde vira
levantar-se o Sol do seu leito de neve.
E ele, pai extremoso, rico e saudoso da ptria, disse  filha que, pr
cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um
alto monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos
fresqussimos.
E a filha, cingindo-lhe ao pescoo, exclamara:
 E quando vamos?
 Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irs tu, e levaremos para
a capela os ossos de tua me. E eu descansarei desta labutao em que
pude granjear mais que o preciso ao teu passadio, visto que preferes, a
viver em Paris, uma casa nas serras de Portugal.
E saiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso chal
que a filha fantasiara.
Ora, os arquitectos do Minho, como no percebessem a planta do
Africano, construram-lhe um palcio aldeo, espcie de dormitrio
monstico, um leviato de granito zebrado de vidraas enormes e portas
alterosas.
Perto dali, na outra lombada do mesmo outeiro, est o antigo solar
torreado dos senhores de Fareles.
E eu, que, naquele tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do
pao senhorial de Ruives, a decifrar a lenda meio histrica dos Correias de
S nos frescos do teto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do
Africano, dizia entre mim: "O palcio cavaleiroso que desaba e o palcio
industrial que se levanta. Aquele recorda as manhas picas do peito ilustre
lusitano, indstria da lana que atirou da ndia para ali, na ponta
ensangentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecute e Mombaa.
Ergue-se o novo palcio para assinalar  posteridade que o peito moderno
lusitano  ainda ilustre e empreendedor, diferenando-se do antigo somente
no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o ndio pela frente ou
verberar o Etope pelas costas."
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Mas eu no sabia se aquele homem, to entranhadamente pai,
amealhara os seus haveres pr entre os perigos do cruzeiro. Talvez que
no. A riqueza no  sempre o estipndio generoso dos homens cruis. E,
em coraes afistulados por peonha de cobia  sede execrvel que se
apaga em lgrimas  no cabe o exaltado e santssimo sentimento do amor
paternal. Quem chora por um filho no tem olhos que vejam, enxutos,
arrancar escravos dos braos de suas mes. Verdade  que os prticos
destes ultrajes a Jesus  ser divino em que Deus se manifestou no mais
elevado grau da conscincia humana  dizem que l, nas cubatas, no h
mes nem filhos: h indivduos bestialmente rebanhados e inconsciente de
laos de famlia. Se assim , meu Deus, porque no destes  vossa criatura
de epiderme negra o amor maternal que dulcifica as meiguices da hiena
enroscada nos filhos?
*
Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, os patins, as
portas, a capela e o jardim, Duque, o Africano, saudoso da filha, deixou a
obra em meio e dinheiro de sobra ao seu feitor, pautando-lhe que, no prazo
de doze meses, a casa estaria feita.
E voltou a Benguela, onde tinha centenas de escravos, armazns de
caf, de marfim, de gomas, e as suas vastas sementeiras sobre dez lguas
circulares de terra, onde o suor da pele fusca, porejado pelo sol a pique, era
um como adubo forte, um guano de sangue estilado por entre febras
vigorosas e distendidas pelo ltego.
Vendeu as fazendas, enfeitou as bestas e os negros, abarrotou a galera
de carregao sua, esquivou a tolda, decorou de froixis de seda o camarim
da filha e projetou  ptria. Parecia um dos antigos vice-reis que voltavam
da ndia, duns que no se chamavam Joo de castro nem Afonso de
Albuquerque.
 Vale duzentos contos a carga da Deolinda!  diziam os amigos do
Africano, quando as velas da galera, chamada com o nome da filha de seu
dono, trapeavam bafejadas por aprazvel brisa.
A navegao, por perto da costa, e sempre ajudada por prsperos
ventos, correu alegre e descuidosa de receios.
Deolinda deleitava-se a remirar a prata das ondas espumantes, ou,
enlevada em leituras amenas, passava as tardes na tolda, enquanto no
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chegavam os seus amores mais queridos, as estrelas do cu e as
fosforescncias do mar.
Ela era mulata, e bela quanto cabe ser, com a face beijada por aqueles
raios ardentes e o sangue escaldeado das lufadas do deserto  mulata, com
as feies levemente denunciativas da raa materna, quase tirante a
esmaiado amarelido, um bem harmonizado conjunto de graas, avantajadas
ao que se diz beleza, debaixo deste nosso cu de rostos nveos, sangue
pobre e epiderme alvacenta.
Trasmontada a linha e festejado o passo com descantes da maruja, o
cu entrou de nublar-se, a nortada a ringir nas gveas os silvos agoureiros
e o piloto esperto a encarar mui fito em um nevoeiro que se acastelava,
sobrenoite,  volta do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1869.
Ao repontar a manh do dia seguinte, o mar urrava acapelado, as
nuvens desciam a sorver as ondas que se encurvavam, o sol apenas
entreluzia frio e marmreo na baa claridade da manh.
Ao meio-dia, o escurecer fez-se rpido e pardacento como um
crepsculo de noite invernosa.
Bravejou sbita fria de mar, apenas colhido o velame.
O piloto vira terra, e cobrara alento na esperana de aproar a Cabo
Verde, conquanto se temesse daquela costa infamada de muitos naufrgios,
desde que portugueses se andam  cata de oiro e oprbrio pr entre os
colmilhos da morte, na espdua das tempestades, a braos com a ira de
Deus e dos homens.
Noite alta, estrondeou no cavername da galera um como estampido de
pea que detonasse dentro.
Deolinda foi colhida nos braos do pai, quando resvalava da camilha ao
pavimento, com o livro das suas oraes nas mos convulsas, e o nome da
Me dos aflitos nos lbios.
 Morreremos, meu pai?!  perguntou trespassada de horror.
 nimo!  murmurou ele , abraa-te em mim, que eu no quero
chorar-te nem que me chores, filha... Morreremos juntos.
Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, o rojar rspido das
amarras, os gritos, as splicas, os apitos, o troar da pea, que pedia
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socorro, e o dos troves, que reboavam, e um relampadejar que azulava os
abismos.
E, de sbito, a galera, aps aquele repelo que lhe vibrou as cavernas,
quedou-se arquejante, a roar nos espiges da restinga.
E as vagas, raivando contra aquele estorvo, galgavam-no, rolando-se,
refervendo e marulhando de um bordo a outro. O poro descosia-se,
bebendo e golfando jorros de gua como o monstro dos mares escalavrado
pelos arpus.
O capito, plido mas sereno, debruou-se no corrimo da cmara e
disse:
 Encalhou a galera, Sr. Duque.  tempo de sair a terra.
 Nenhuma esperana?  perguntou o Africano.
 S?...
Perguntou o homem rico; mas aquele monosslabo, estrangulado na
garganta, rouquejou como um arranco da vida. S! S a vida? O meu suor
de quarenta anos, os meus duzentos contos de ris no salvam? Eu hei-de
sair pobre de entre esta riqueza que  minha, que  o repouso da velhice, o
patrimnio de minha filha? S!
E as lanchas, balanadas no vaivm das ondas, chofravam nos flancos
do navio por entre espadanas de espuma.
Deolinda atravessou corajosa, e firmada no brao do pai, at ao portal.
O Africano levava no rosto um terror indescritvel e nas contores e
visagens de aflio a agonia da pior morte.
E ela saltou de mpeto ao escaler, apenas amparada na mo de um
passageiro, que lhe disse:
 Adeus...
 No vem?  perguntou ela.
 Primeiro ho de vir as crianas, as mulheres e os velhos.
Deolinda contemplou-o alguns momentos, e amparou-se na face do pai,
onde as lgrimas derivavam copiosas.
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Os escaleres varavam na areia, revezados no rolo da vaga. Estavam
salvos os velhos, as mulheres e as crianas.
E, logo, os remadores intrpidos que outra vez se arrostavam com a
morte, viram a galera a balouar-se entre o vagalho e ouviram o estralejar
do cavername por sobre os clamores dos nufragos; depois, levantou-se um
grande mar, e a lancha ficou para alm dessa formidvel montanha; e,
quando o escarcu descaiu para solevar a barca, um momento quieta nas
fauces da voragem, os mareantes j no viram da galera seno o gume da
quilha e  volta dela o bracejar dos agonizantes.
*
Um dos que ali morreram foi aquele que, dando a mo a Deolinda, lhe
dissera: "Adeus!"
Era um homem de trinta anos, bem figurado, ares de fina raa e
maneiras de corteso, com palavras polidas e muito alheias das usuais nos
homens que viandam por aquelas paragens. No lhe sei o nome, nem que
lho soubera o diria. Foi-lhe tmulo o mar, como se a sorte quisesse que o
seu nome se no lesse em epitfio. Sei que ele cumprira sentena de trs
anos em angola, porque aspirara s honras de ser rico, sem escrupulizar
nos meios. Tinham-lhe dito que os seus conterrneos mais nobilitados se
haviam enriquecido trocando as riquezas de s conscincia por outras que
levam ao Inferno,  verdade, mas pelas portas do Paraso das regalias deste
mundo. Via-os saborearem-se em sossego dos bens mal adquiridos, sem
remorso que lhes desvelasse as noites, nem injria da sociedade que lhes
pusesse ferrete na testa; ao revs disso, eles eram a classe mais ao de
cima, a gente chamada s honras, sem desconto na estupidez nem proterva
reputao, quando  procedncia dos seus bens de fortuna.
Nascimento ilustre, educao primorosa em letras e bastante
descuidada em moral, pobreza repentina por efeito de demandas que o
esbulharam do patrimnio, impacincia, ruins exemplos de infames
prosperados  todas estas coisas se travaram de mo para o perderem. O
seu crime foi associar-se desaproveitadamente com moedeiros falsos,
prestando-se a servir de passador de notas no Brasil; no ato, porm, de
fazer-se  vela para l, de um porto do arquiplago aoriano, foi
denunciado, preso e condenado.
De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu
pai, que o tratava com desdm, se no desprezo. A filha do negreiro 
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negreiro no comeo da vida mercantil, mas depois (bendita seja a
civilizao!) filantropo seguidor das leis humanitrias impostas pelo cruzeiro
 soube do seu pai o crime do passageiro e no se compenetrou do racional
horror de tamanho delito. Bem que o condenado no ousasse abeirar-se dos
mercadores, e menos dela, Deolinda usou traas de conversar com ele uma
fugitiva hora de noite serena, enquanto o pai, no seu camarim, formava
esquadres de algarismos, dos quais tirou a prova real de que os seus
haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe atribuam.
Desde essa hora da noite estrelada em que ela ouvira palavras nunca
ouvidas, acendeu-se no corao combustvel da mulata o fogo que costuma
purificar as culpas do homem amado, tanto monta que ele seja moedeiro
falso, como homicida, quer negreiro, quer ladro de encruzilhada.
E ele soube que era amado daquela mulher que havia de herdar muito
ouro, e nem por isso lhe deu o galardo de Ter descido at ao pobre
estigmatizado para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem
nimo alvoroado por esperana de ser, a um tempo, amado e rico.
Deolinda ousou argi-lo de frio e desdenhoso. Ele explicou docemente a sua
frialdade, dizendo que s havia no mundo uma mulher que no devia
desprez-lo, e uma s a quem ele devesse amar sem pejo nem temor de
ser repelido.
 Quem ?  perguntou ela em sobressalto.
  minha me. Vou procur-la e pedir-lhe perdo, porque pus a minha
ignomnia  cabeceira do seu leito de moribunda. Se a no mataram
vergonhas e saudades,  porque Deus quer que eu a veja.
*
Quem sabe a dizer o que Deus quer de ns?
O degredado, na volta da ptria, ali morreu naquele naufrgio, depois
que ajudou a salvar as crianas, as mulheres e os ancios, despedindo-se
de todos com aquele sereno adeus que dissera  filha do Africano.
E Deolinda, quando soube que ele era um dos vinte e cinco cadveres
escalavrados na costa de Cabo Verde, chorou poucas lgrimas, e parecia
querer romper no seio uma represa delas, que lhe deliam os estames da
vida.
 Estamos pobres!exclamava o pai.
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 Temos de mais para o que havemos de viver  respondia ela com
uma alegre serenidade.
 Porque hs de tu morrer, minha filha?  volvia ele, j conformado
com a desgraa.
 Porque senti h pouco um estalo no corao e cuidei que morria
abafada. Passou esta nsia, mas sei que hei-de morrer disto. Parece que
vejo a sepultura aberta e que o frio do cadver me trespassa.
O pai aconchegou-a ao seio, como quem aquece uma criana
enregelada e soluou:
  meu Deus, levai-me minha filha quando eu me queixar da vossa
vontade que me reduziu a esta pobreza!
II
Quando soou em Ruives a nova de haver chegado ao Porto o Africano,
com a filha, os homens ricos e pobres, da terra e de fora, contriburam com
mais ou menos para se lhes fazer uma espera de estrondo em Famalico.
Contrataram-se as bandas musicais mais em voga, ou mais na berra, como
diziam os antigos. Parece que a frase seiscentista foi inventada
particularmente para as orquestras daqueles stios, as quais berram pelas
suas goelas de metal, quando a paixo filarmnica as no exalta do berro
ao mugido, do mugido ao urro e do urro ao bramido. H ali trombetas que
parecem Ter assistido ao arrasar-se d Jeric da Bblia, e se reservam para
trovejarem o horrendo sinal da ressurreio de Josafat.
Eram quatro as filarmnicas chamadas a festejarem a entrada de
Antnio Duque no conselho. A msica de Landim, famosa por seis cornetas
de chaves, que executavam valsas e peas teatrais, de modo que, se Ducis
as ouvisse, diria que a pera lrica balbuciara os seus primrdios entre as
florestas drudicas. A banda de Fafio competia com a de Guinfes na
substncia das trompas e troada das caixas. A de Ruives avantajava-se s
trs rivais na delicadeza das modas e sentimentalismo com que as
charamelas respiravam o sopro daqueles msicos, cujas bochechas
pareciam estar cheias de alma e castanhas assadas.
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Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os inocentes
deleites que prodigalizam ao seu auditrio as quatro bandas musicais de
Landim, Fafio, Ruives e Guinfes. Quando algum amigo vai alegrar o
ermo de S. Miguel de Ceide, chamo logo a msica mais delicada, a de
Ruives; principalmente se o amigo  de Lisboa, e frequentador de S.
Carlos. O senhor visconde de Castilho e seu filho Eugnio so chamados a
depor neste processo da imortalidade que vou instaurando ao figle e 
requinta, principalmente  requinta de Ruives. No vi o senhor visconde
chorar de prazer, mas observei que S. Ex.a estava comovido quando a
requinta assobiava uns guinchos estridentes da Maria Cachucha.
Toms Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se s vezes, no ao seu
quarto a calafetar os ouvidos, mas ao ntimo de sua alma a fazer viveiro de
inspiraes. Eugnio de Castilho, o poeta das fantasias louras, quer a
msica de Ruives lhe amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinis das
ramarias lhe dessem invejas dos seus amores, fosse o que fosse, foi
assaltado e vencido duma paixo.
Esta paixo tem uma histria. No sei se ele tenciona escrev-la nas
suas memrias pstumas; e assim, cont-la eu,  esbulh-lo da novidade e
primazia; desconfio, porm, que o meu hspede e amigo desconhece a
histria daquela raparigaa de cabelos de ouro e ancas boleadas que
deslumbrava a dzia de moas requebradas que lhe apresentei na eira.
Chamava-se ela Amlia de Landim. Contava-se que tinha vindo para ali
da roda dos expostos de Barcelos. Naturalmente, porque era linda e pobre,
ou se vendera ou tinha sido vendida. Assim se disse; mas o certo foi que
um filho de lavrador rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, ao fundo da
qual estava a voragem. Pode ser que a alma se abismasse e requeimasse
no fogo dos infernos por onde resvala a mulher perdida. Pode ser. Do corpo
 que ela no perdera a menor beleza; nem sequer o vio dos dezoitos
anos.
Teria ento vinte e cinco. No era beleza peninsular. Aquele escarlate,
os olhos azuis, os opulentos cabelos louros, a pujana das formas, a
musculatura rosada e rija, a elegncia congnita, o riso, a desenvoltura sem
despejo, a graa lbrica do trajo, enfim, a mulher, os arvoredos, a msica
de Ruives, nomeadamente a requinta, e em meio de tudo isto um rapaz de
vinte e dois anos, poeta porque  Castilho, e ardente porque  trigueiro, e
apaixonado porque  ardente, eis aqui o porqu daqueles amores.
Castilho carecia de um confidente com ouvidos e crtica. A poesia no
lhe deu para se confidenciar com os sobreiros da mata, nem me consta que
ele se andasse a entalhar na cortia iniciais e datas.
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O seu confidente foi o morgado de Pereira, ltimo senhor da honra e
couro de Esmeriz, um rapaz de grande corao, que eu apresentei, no
Limoeiro, a Jos Cardoso Vieira de Castro, que, em 5 de Outubro do ano
passado, morreu no degredo, para onde o acompanhou aquele morgado.
Este neto dos Ferreiras Eas e dos remotos casteles de Riba de Ave  hoje,
em Cassengo, na frica, negociante de caf, de marfim, de gomas, de
farinhas, etc. Depois de haver bandarreado vida de fausto, com muitas
iluses perdidas, mas pouqussimas lgrimas, porque a desgraa lhe anda
sempre a morder os taces das botas, em dia de fiis defuntos ajoelhava, e
ento chorava, no cemitrio de Luanda, defronte do cmodo onde jaz Vieira
de Castro, o mais sublime desgraado que os homens injuriaram, desde que
o sol de Deus aquece condies de feras dentro dos covis que se chamam
arcas do peito.
 meu caro morgado, estas linhas no chegam ao seu serto, nem eu
desejo que as leia, para lhe no darem rebates de saudades daquelas noites
de 1866, quando voc e mais o seu gentil confidente, com interveno da
Lua, falavam da Amlia de Landim, enquanto os meus queridos visconde de
Castilho e Toms Ribeiro se embelezavam nas trovas da Custdia da Feira,
que seria Hipatias, se nascesse na Grcia, ou Corina, se os amavios de Itlia
lhe coassem no seio coisas mais limpas do que as coplas que a trovadora do
Minho tirava do estmago em perfumes de vinho verde.
No sei como Eugnio de Castilho saiu de S. Miguel de Ceide, pelo que
respeita  alma. L dizia-se que Amlia, a doida, veementemente
apaixonada, iria deps ele. Eu receei o lano de fino amor, donde adviriam
ao meu hspede agros desgostos. Se os de Lisboa lha vissem, quantos
rivais, que mordentssimos cimes! Aquilo era mulher para destinos
extravagantes. Que a sentassem numa frisa de S. Carlos! Os binculos
assestados nela seriam tantos como as paixes, e ao outro dia a enjeitada
de Landim, se no fizesse ministrios, havia de fazer muito amanuense de
secretaria e dar vazo ao estanque de muito bacharel.
No foi: estava-lhe reservado menos brilhante mas mais pacfico
destino.
Um dia, apareceu em Landim um homem de Barcelos, procurando a
mulher que trouxera da roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada
Amlia. Vivia ainda a ama que a criara. Foi chamada a exposta  presena
do homem que se dizia portador de uma fausta nova.
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Chegou Amlia, e recebeu do velho desconhecido o tratamento de
excelncia. Cuidou-se ela ludbrio do sujeito e riu-se s casquinadas para
lhe agorentar o prazer da zombaria.
No entanto, o velho, composto gravemente o aspecto, disse-lhe:
 Minha senhora, no  para gargalhadas a misso que venho
cumprir...
 Pois V. S.a est a dar-me excelncia!  volveu Amlia.
 Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus avs. Seu pai, o Sr. lvaro de
Mendanha, antiqussimo fidalgo e representante dos alcaides-mores de
Barcelos, faleceu h trs dias com testamento, em que declara que houvera
de uma sua parenta, quele tempo freira no mosteiro de Vairo, uma filha,
que por justos motivos expusera, assinalando-a com o nome e outras
circunstncias. Acrescenta que tem notcia de existir em Landim essa
menina, que ele reconhece sua filha, e a institui sua universal herdeira.  V.
Ex.a, portanto, a herdeira do Sr. lvaro de Mendanha.
A ama abriu a boca e despediu um ah surdo, que vinha da garganta
afogada pelo jbilo.
Amlia quedou-se imvel, pensativa, triste, e murmurou:
 Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque me no levou para a
sua companhia?
 Respondo, minha senhora. Quando V.Ex. tinha dezoito anos, seu pai
indagou e descobriu que a Sr. D. Amlia estava aqui; porm, ao mesmo
tempo, exactas ou inexactas informaes lhe asseveraram que a senhora
levava uma vida pssima, desonrada e cheia de oprbrio. Receou, com
algum fundamento, o Sr. lvaro de Mendanha que o aviltamento de sua
filha desluzisse o lustre do seu nome, e por isso abafou o corao e o
remorso debaixo do peso da dignidade, ou recuou diante da irriso do
mundo...
 Mas...  interrompeu Amlia  se eu estava perdida, foi porque ele
me atirou ao mundo e  sorte sem amparo de ningum...
 Tem razo, minha senhora, e foi essa mesma a razo que moveu seu
pai a deixar-lhe todos os seus bens.
14
 Mas eu antes queria conhec-lo es ser pobre, que ser rica por morte
dele.
 J que no  remedivel essa nobre dor  tornou o testamento de
Mendanha  receba V. Ex.a a suprema prova do arrependimento de seu pai.
Neste legado dos bens est o legado do corao. Seja de hoje em diante V.
Ex.a digna dele, j que desde esta hora os seus apelidos so dos mais
ilustres desta provncia.
Neste mesmo dia, D. Amlia de Mendanha saiu para Barcelos, onde
entrou a ocultas para o palacete de seu pai, a fim de trajar luto e aparecer
convenientemente aos numerosos parentes que confluam a desanoj-la.
Os bens eram grandes em terras e foros. Casa antiga e slida. Alfaias
do tempo de D. Joo V a dourarem os sales de tecto apainelado, com
reposteiros brasonados. Na parte mais velha do edifcio, cadeiras
repregadas de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a
cores, guadamecins nas paredes, amplas mesas de ps torneados, leitos
rendilhados com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da
ndia com as iniciais de um governador de Chaul, oriundo de Mendanha,
retratos de famlia, a comearem em D. Gil Gutierres de Mendanha,
solarengo de Barcelos. Em meio disto, e senhora de tudo isto, aquela
Amlia de Landim,  meu amigo Eugnio de Castilho! Aquela Amlia, que
sarabandeava a Cana verde, o Leva gua o regadinho, e descantava umas
Torradas com manteiga que no h a mais que se diga.
 Onde estava ela?
Perguntavam entre si as primas e os primos.
E diziam exatamente onde ela estivera e de que infectos pauis se
levantara com asas de ouro aquela borboleta sada de to feio casulo!
Relatavam-se os pormenores da sua desgraada vida, encareciam-se, como
se fosse preciso, as desonestidades... e visitavam-na.
Volvidos alguns meses, trs padres,  compita, lhe saram a propor trs
casamentos: rapazes, parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e
gentilssimos de suas pessoas.
Rejeitou-os.
Um dia, saiu D. Amlia de Barcelos, na sua sege, apeou em Famalico,
saiu a p, e parou perto de Landim,  porta de um lavrador. Procurou por
um homem que dava pelo nome de Antnio do Couto de Baixo.
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Saiu a falar-lhe no quinteiro, ou alpendre, um sujeito de trinta anos,
boa figura de campnio, estupidez em barda por todo aquele caro.
 Antnio  disse ela , conheces-me?
 A senhora, a senhora.... acho que ...  tartamudeou o lavrador
agadanhando no occipital.
 Sou a Amlia de Landim. Quando eu tinha 15 anos, amei-te. Era
ento inocente. Esperava ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai no te quis
deixar casar comigo, porque eu era pobre. Sei que sofreste, e quiseste fugir
para o Brasil a fim de ganhares dinheiro, para depois me receberes. Eu no
te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te
amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar comigo?
Responde.
 Quero.
 Ento segue-me.
 Deixa-me ir dizer a minha me, que essa queria que eu casasse
contigo.
 Podes diz-lo a teu pai, que esse tambm quer agora.
E, da a momentos, o pai e a me saram ao alpendre, a receb-la, e
levaram-na para o sobrado entre carcias.
A pernoitou.
O velho nunca pde desarticular os queixos da apostura do espasmo,
desde que D. Amlia principiou a contar por milhares de alqueires de milho
o rendimento de sua casa.
Ao outro dia, que era Domingo, leram-se os primeiros banhos, e, com
dispensa dos imediatos, casaram-se na Igreja de Santa Maria de Abade.
*
Mas a que propsito caiu este conto, que no tem que ver com Aquela
Casa Triste!...
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Ah! Foi pr amor da requinta da msica de Ruives, que est agora
silvando na Barca da Trofa,  espera de Antnio Duque, o Africano.
III
As quatro msicas reunidas na Ponte da Trofa, Depois de espavorirem
os passarinhos, que, ao descer da tarde, se embocavam nas ramarias do rio
Ave, retrocederam, porque o Duque no chegou. Os promotores da festa,
mandando sobraar os feixes de foguetes de trs estouros, disseram entre
si que o Africano, faltando  hora da espera triunfal, bem demonstrava ser
filho do capador da Lamela. Outro era de parecer que o Duque, tratando de
resto as pessoas que o obsequiavam, dava a perceber que no queria
amigos... do seu dinheiro.
O Africano havia escrito de Lisboa ao seu feitor, anunciando-lhe o dia
em que tencionava chegar  sua casa de Ruives, com recomendao de lhe
ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua
filha.
Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufrgio, porque a no
sabia. Se o homem lesse gazetas, informaria os seus vizinhos do desastre
de seu amo, da riqueza engolida pelas goelas da tormenta, da quase
pobreza em que ficara o nufrago, e, enfim, das piedosas lstimas com que
os peridicos deploravam a catstrofe de duzentos contos granjeados
honestamente. Se isto se soubesse em Ruives, no haveria quem se
afanasse em busca de msicas, competindo entre si os obsequiadores sobre
qual arranjaria aquela que maiores gritos fazia dar  fama pelos buracos da
requinta. Quando s vinte e quatro dzias de foguetes de trs estouros que
os rapazinhos de Ruives tinham carregado at  Ponte da Trofa,  bem de
ver que ningum se abalanaria a tamanho estrondo de generosidade, se
soubesse que o Duque no vinha em circunstncias de chorar de ternura
abraado ao peito magnnimo donde rabeavam tantos foguetes.
No dia marcado ao feitor, devia o Africano chegar  Ponte, onde era
esperado; porm, apeando na estalagem de Carria, lgua e meia distante,
ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro msicas e
muito fogo do ar,  espera de um brasileiro que vinha da frica.
Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege,
porque resolvera sair de madrugada.
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Depois, foi contar  filha o que ouvira e o desgosto que queria evitar no
encontro de festas, to desapropositadas da tristeza de ambos.
Deolinda, prostrada no leito, aprovou a resoluo do pai, queixando-se
de agonias, sufocaes e desmaios do corao, que mal a deixavam seguir
a jornada.
Passou o pai o restante do dia e parte da noite  beira da cama,
inventando com santo esforo alegrias que divertissem Deolinda da
concentrao que uma ou outra lgrima desafogava por momentos.
Alegrias!...
Que herosmos cabem em peito de pai! Quantos h que so supliciados
por esse amor que parece vir da mo de Deus! Que maiores angstias tem
esta vida, se compararmos todas  daquele pai que ali estava ao p da filha
que os mdicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida!
Mas ele, acreditando na cincia que tem a certeza de ser leso mortal a
hipertrofia do corao, afigurava-se-lhe que a Providncia o no castigaria
to severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens, para
depois amparar em seus braos a filha agonizante. Nunca discutira entre si
se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento deste mundo.
So meditaes estas que, em frica, passam rpidas como o siroco, mas
no abrasam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo at bater com as
faces nos areais. Os que por ali veniagam,  imitao do pai de Deolinda
pensam, se acaso pensam, que a justia do Cu tem alada em mais
amenos climas e descura saber se l o homem tem mais ou menos
semelhana com o tigre. Porm, depois que o cu se azula e estrela, aqum
da linha, e a brisa refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos,
no recusam crer que h Deus, dadas certas condies; fazem-lhe o
obsquio de o conjecturar sentado  mo direita do Padre Eterno e
absorvido na perenal glria de sua divindade, sem entender nas
trivialidades deste globo, mais pequeno que os milhares de mundos que lhe
circunvalam  ourela do trono. Esta filosofia  grandiosa e barata. Cansamse
os mestres em a propagar, e, todavia, qualquer sandeu bem engraxado a
tem espontnea na alma, como tortulho em lodaal, sem que os filsofos
lha inculquem. Estudem Ario, Espinosa, Renan e outros, afora o meu
bacalhoeiro, que tem dentro de si trs filsofos, um prtico, um liceu,
dentro de si, repito, porque o si, o ele, so as cdulas bancrias, a burra,
que tem um nome de predestinao para aviso e escarmento de sbios que
se burrificam, no querendo acabar de entender que saber, honras, regalos,
respeitos, inviolabilidades, vem tudo da burra.
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Sucede, porm, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se
arqueia em vagalho e se abre em voragem. A resvala a riqueza do
homem, que se arrodelara com ela das farpas do mundo. Os brilhantes
impenetrveis do arns caram e rolam na profundidade do abismo. Aqui
est o homem a pensar em Deus, porque est pobre, est sozinho, j se
no v dolo dos outros e divindade de si prprio. A desgraa, que traz
sempre consigo um anjo vestido no Cu com uma luz que arde inextinguvel
no tmulo de Slvio Plico, assenta-se ao lado do infeliz e comea por lhe
dizer:
"Que eram esses bens da vida, se to depressa te reduziste a esta
pobreza? Olha tu para as estrelas que cintilam serenamente sobre a
voragem que tos devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que h destes
milhes de mundos para alm!"
Ah! Quando esta voz repercute na conscincia de um pai, e ao mesmo
tempo a asa da morte roa e tinge de rubor febril a face de sua filha, ento
sim, Deus entreluz na treva, a alma cr, mas cr para pedir de mos
erguidas. Isto  f,  f que relampagueia; mas eu no sei se alguma hora a
razo dos grandes desgraados foi alumiada por esse relmpago.
Pelo que, assim orava o Africano, s quatro horas da manh, em p,
defronte do leito da filha adormecida.
*
Entraram na casa apalaada de Ruives, inesperadamente.
Quando o souberam os vizinhos, um correu  igreja a repicar o sino e a
sineta, outro rompeu as nuvens com girndolas, a orquestra da terra, que
andava dispersa a sachar os milharais, confluiu de galope a casa do mestre,
escodeou as mos no regato, travou dos metais e prorrompeu
estrdulamente  porta do Africano, tocando o hino de 20, o hino do Sr.
Costa Cabral, o hino da Sr.a Maria da Fonte, o hino do Sr. Duque de
Saldanha e o do Santo Padre Pio IX.
O Africano saiu  janela com sua filha, cortejou o pblico, assistiu a das
mazurcas tocadas com variaes de requinta e pediu vnia para recolherse,
em razo de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no rosto.
O pblico murmurou, trejeitando uns momos significativos de menos
respeito.
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O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos msicos e
receber a visita dos parentes e mais lavradores.
O Duque respondeu:
 V a fora ao ptio e diga bem alto que eu estou pobre.
 Pobre!  acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz.  Bem me fio
eu nisso! V. S.a est a mangar!...
 Faa o que lhe digo  volveu severamente o amo.
E, de facto, o criado foi ao ptio, chamou a si os lavradores mais
grados, o mestre da msica, o boticrio de Deles, e o boticrio de Landim,
e o regedor de Vermoim, e disse-lhes:
 O Ilustrssimo Senhor Duque manda-me dizer a vossemecs que est
pobre.
Os circunstantes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo
choque. Um deles, porm, que eu presumo fosse um dos dois boticrios,
deu aos beios um jeito de quem vai orar. Encararam-no todos, e o
boticrio tirou do peito estas duas palavras:
 Ora bolas!
E saiu do ptio.
Tenho esquadrinhado o melhor sentido daquelas palavras do tico
farmacutico. Consultei fillogos que mais convizinham deste sujeito, e
apenas colhi que as expresses montavam tanto como dizer: ora bolas.
Eu porm, dou mais lata interpretao ao epifonema, sabendo que todo
aquele gentio boloirou para casa.
*
O Africano, passados seis meses, procurou um brasileiro rico de Nines,
recentemente chegado, e disse-lhe:
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 Sei que o senhor est resolvido a edificar uma casa. Se quer pouparse
a grandes despesas, incmodos e desgostos, compre-me a minha.
Vendo-lha metade do que me custou, com uma condio: se eu e minha
filha no tivermos morrido dentro de seis meses, serei obrigado a dar-lhe a
casa no fim deste prazo; mas, nestes primeiros seis meses, o senhor no
poder ocup-la.
Pediu o brasileiro explicaes de to estranha clusula.
O Duque respondeu:
 Minha filha est mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu
tambm me sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a
doena me deixa ver a morte na face de minha filha. No hei-de sobreviverlhe,
se Deus me no fizer o benefcio de me levar adiante.
Consolou-o o brasileiro conforme soube, aceitou a proposta e assinou as
escrituras no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de ris.
Pagou o Africano as dvidas contradas em Cabo Verde, encerrou-se na
antecmara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em agravar os seus
padecimentos  custa de se remirar no seu infortnio, de cortar bem dentro
as fibras ainda rijas do corao antecipando a imagem da filha morta,
repulsando todo o alvio da esperana, furtando-se a todo o desafogo,
matando-se com a lentido de um desvairado que se escavernasse num
antro, esperando sem terror a entrada da fera e ansiando-a para se lhe
rasgar nas presas.
Ao quinto ms do contrato, os padecimentos de Deolinda tocaram nos
extremos sintomas da morte. As hemorragias amiudaram-se. Estava j
entorpecida, imvel, salvo quando arrancava do seio as aspiraes, que
revelavam ao travs das coberturas da cama os arquejos do corao.
Nesta conjuntura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma conveno que
era j delrio precursor da demncia ou da morte: "Se ela hoje morrer, ou
Deus me mata amanh ou, quando ela estiver sepultada, eu me matarei."
O proco, que sacramentara Deolinda, ouviu esta vozes e disse aos
botes da sua batina: "Este homem est no Inferno."
Quando ficou sozinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe:
 No quero ir desta vida sem dizer-lhe um segredo com que no devo
morrer. No meu ba est uma caixinha de folha, que o mar lanou  praia,
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depois do naufrgio. Levaram-me em Cabo Verde esta caixinha, cuidando
um marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma me
muito extremosa para seu filho. O filho era aquele rapaz que vinha do
degredo, e salvou os velhos e as crianas antes de morrer. A me, que lhe
escrevia, diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angstias da fome.
Chama-se ela... Meu pai lhe ver o nome e a terra onde vivia... Se tiver
morrido, feliz dela. Se ainda viver, meu pai, manda-lhe como esmola o que
ficar do meu esplio e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... at
morrer... por ele!...
 Cumprirei a tua vontade, minha filha  respondeu o pai.
*
Ditas aquelas palavras, o Africano encarou na filha com a fixidez torva
de um amaurtico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, saiu
da alcova, atirou-se como brio para o leito, e murmurou estas vozes:
 Meu Deus! Morro por amor de minha filha, e ela... morre por outro...
Bem podia consentir a desgraa que eu morresse sem este desengano...
Vinte anos a adorar esta filha, um ano a agonizar ao p da sua agonia... e
afinal ouo-lhe dizer que morre por um homem... que no era seu pai...
Escabujou em nsias muito aflitivas, pedindo a Deus com dilacerante
esforo que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluos; e, sufocado pelo
choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida num estremecimento
instantneo.
Deolinda ouviu o murmrio rouco desta convulso da morte, e voltou a
face para onde supunha que estava o pai.
Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforo. Tangeu a
campainha. Acudiu a criada, a quem ela pediu que lhe desse o seu vestido.
Foi nos braos da criada  sala contgua, onde o pai tinha o seu leito.
Dobrou-se sobre o peito dele, colhendo-lhe nos lbios um hlito ainda
quente, como vestgio da alma que passara queimando as fibras por onde
abrira a fuga do seu inferno.
 Morto!  bradou ela, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue.
Transportada ao canap fronteiro, ali se quedou empedernida. No
houve rogos que a tirassem de l. Viu amortalhar o cadver de seu pai, viuo
sair no esquife para ser depositado na capela da casa, ouviu o ltimo
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dobre da sepultura; e ento, comprimindo o seio esquerdo com ambas as
mos, invocou a compaixo da Virgem Santssima e expirou.
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L est em cima aquela casa triste... O brasileiro que a comprou no a
quis habitar. As janelas nunca mais se abriram. O vestido que despiram do
cadver de Deolinda pende ainda da espalda do canap em que ela morreu.
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